Perfil.

Nome: Wallace Andrioli Guedes
Idade: 21 anos
Cidade: Juiz de Fora - MG
e-mail: wguedes2004@yahoo.com.br

Um filme: Touro Indomável
Um diretor: Martin Scorsese
Um ator: Al Pacino
O que faço da vida: História(UFJF)


Top 5 - 2007:
1- Maria Antonieta
2- Zodíaco
3- Cartas de Iwo Jima
4- A Vida dos Outros
5- Conduta de Risco

Top 5 - 2006:
1- Brokeback Mountain
2- Munique
3- Os Infiltrados
4- Filhos da Esperança
5- O Labirinto do Fauno

Top 5 - 2005:
1- Marcas da Violência
2- Old Boy
3- Menina de Ouro
4- O Aviador
5- O Jardineiro Fiel





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Projeto Comuny Todo Mundo no Cinema

[Quinta-feira, Setembro 04, 2008]


O Nevoeiro (The Mist)
Direção: Frank Darabont


É muito bom ver o excelente Frank Darabont voltar à ativa, após o longo intervalo desde seu último filme lançado, o fracasso Cine Majestic (2001). E é voltando a Stephen King, de cujas obras já havia retirado seus dois primeiros filmes, os maravilhosos Um Sonho de Liberdade e À Espera de Um Milagre, que Darabont orquestra esse seu retorno, só que agora apostando no gênero que tornou King tão famoso: o terror. Aliás, terror é uma palavra que define muito bem esse espetacular O Nevoeiro. Com uma competência absurda, o diretor cria uma experiência capaz de mexer com os mais profundos medos do ser humano, sem precisar de inventar muito para isso. O Nevoeiro, na verdade, aposta na velha fórmula dos personagens confinados em um mesmo espaço, utilizada em tantos e diferentes filmes (e séries, como Lost), mas aqui há uma ameaça externa que dá à convivência interna uma nova dinâmica. E é aí que Darabont acerta em cheio pela primeira vez: a composição de seus personagens e, principalmente, das relações estabelecidas entre eles, chega ao brilhantismo. Contando com um elenco profundamente inspirado, onde se destacam um surpreendente Thomas Jane (que cumpre bem o papel de líder inusitado daquele grupo e que revela um inesperado talento nas cenas mais dramáticas, capaz de angustiar profundamente o espectador), um cativante Toby Jones e uma estupenda Marcia Gay Harden (que cria com uma paixão impressionante uma das personagens mais fascinantes e repugnantes do cinema recente, que poderia facilmente se transformar em uma caricatura mas que, nas mãos da atriz, se torna uma assustadora mulher de carne, osso e muita fé), Darabont consegue atingir o que talvez seja o maior objetivo de seu filme: mostrar que, na maioria das vezes, os verdadeiros monstros não são as criaturas de origem misteriosa que ameaçam a existência humana, mas sim nós mesmos, que, relegados a um estado de caos, revelamos nossa verdadeira essência, muito distante da pretensa "civilidade" que acreditamos possuir. Nesse sentido, O Nevoeiro traz algumas cenas absolutamente memoráveis, como todas aquelas que mostram a escalada de fanatismo da personagem de Gay Harden e de seus seguidores e, principalmente, o epílogo do filme, que merece um comentário à parte. A maneira como o diretor encerra a narrativa de O Nevoeiro é, para começar, genial. Darabont demonstra uma coragem assustadora para criar um dos mais impactantes, marcantes, tristes e inesperados finais que o cinema já viu, ousaria dizer, em toda sua história (e são nesses momentos finais que Jane coroa sua interpretação). É um momento de uma ironia amarga que deixa no espectador uma sensação incômoda a ser carregada por um bom tempo após o fim do filme. No entanto, Frank Darabont tem mais um grande acerto: como grande filme de terror que é, O Nevoeiro possui não só monstros apavorantes e repugnantes (criados com competência pelos simples mas eficientes efeitos especiais utilizados no filme), capazes de causar um medo verdadeiro em quem o assiste, como cenas de horror inesquecíveis e bastante violentas protagonizadas por esses monstros (das quais vale destacar o primeiro ataque, nos fundos do supermercado, o ataque noturno das criaturas voadoras e a ida à farmácia de um grupo de personagens). Após assistir a O Nevoeiro, fica difícil não pensar no quanto Frank Darabont estava fazendo falta no cinema atual.


por WALLACE ANDRIOLI GUEDES * 9:12 PM

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[Sexta-feira, Agosto 29, 2008]


Era Uma Vez ...
Direção: Breno Silveira


Breno Silveira é um ótimo diretor. Se isso já estava evidente no surpreendente e belíssimo 2 Filhos de Francisco (seu trabalho de estréia no cinema), se confirma totalmente nesse Era Uma Vez .... E digo que ele é um ótimo diretor basicamente por uma imensa capacidade que possui: a de realizar grandes filmes a partir dos mais batidos clichês. Afinal de contas, não era tarefa das mais fáceis fazer da história de superação de uma dupla sertaneja um filme primoroso, delicado e verdadeiramente emocionante como Silveira fez, assim como era quase impossível tornar a velha premissa do jovem pobre vivendo um romance proibido com uma menina rica um grande filme. Mas Silveira, novamente, conseguiu. É verdade que, numa comparação com 2 Filhos de Francisco, Era Uma Vez ... sai perdendo, por ser uma obra possuidora de defeitos que o longa de 2005 não tinha: ao tratar com uma quantidade tão grande de lugares-comuns, o diretor acaba, em alguns deles, escorregando, como no retrato pouco convincente do personagem do pai da protagonista, vivido de forma descuidada por Paulo César Grande, e na construção do epílogo do filme, que, apesar de totalmente coerente com a proposta de Silveira, acaba sendo filmado de uma maneira que o torna forçado, o que acaba fazendo com que a óbvia aproximação com Romeu e Julieta se mostre um tanto exagerada. No entanto, é preciso reconhecer que Breno Silveira merece muito mais aplausos do que críticas. Primeiramente, por conseguir fazer o mais importante para um filme como Era Uma Vez ...: tornar o romance que move a narrativa não só verossímil, palatável, mas verdadeiramente apaixonante. Cada pequeno momento de paixão entre os personagens de Thiago Martins e Vitória Frate é vivido com intensidade pelo espectador, que torce verdadeiramente pelo sucesso do casal, mesmo sabendo estar diante de uma história previsível, ou melhor, tragicamente previsível. E aqui entra o segundo grande mérito do diretor: seu trabalho com o elenco. Martins é um ator fabuloso, extremamente expressivo. Frate é de uma graça em cena que impressiona e cativa. Os dois juntos, são a expressão mais pura e verdadeira da paixão. Silveira descobriu duas jóias e arranca delas grandes desempenhos, como já havia feito em seu filme anterior, ao apresentar os expressivos garotos Dáblio Moreira e Marco Henrique. E, assim como havia feito em 2 Filhos de Francisco, Silveira não só revela novos talentos, como dá um novo brilho a rostos conhecidos. Se naquele filme haviam sido Ângelo Antônio e Dira Paes que davam show, aqui é Rocco Pitanga que surge em cena impecável no papel do irmão do personagens de Martins, um homem de bom coração, mas profundamente marcado pelo ódio. Quando Pitanga e Thiago Martins estão juntos em cena, Era Uma Vez ... se torna um filme ainda melhor do que já é. Mais uma vez, palmas para Breno Silveira. Não foi dessa vez que ocorreu seu primeiro tropeço no cinema.



Encarnação do Demônio
Direção: José Mojica Marins


Saber que José Mojica Marins passou 40 anos tentando filmar esse Encarnação do Demônio já basta não só para admirar essa figura importante do cinema brasileiro como também para arriscar uma olhada nesse seu aguardado filme, mesmo para aqueles que não conhecem a fundo sua obra anterior (meu caso). Com todas as dificuldades possíveis de se imaginar, Marins conseguiu sobreviver ao pouco reconhecimento de seu cinema, se dedicando às mais diversas atividades (como não lembrar de sua presença como apresentador do Cine Trash ?), e manter viva na memória brasileira a figura única de Zé do Caixão, até, finalmente, realizar seu sonho de encerrar a trilogia estrelada pelo personagem (os dois filmes anteriores, À Meia-Noite Levarei sua Alma e Esta Noite Encarnarei no teu Cadáver datam ainda da década de 1960). No entanto, ou melhor, por isso mesmo, Encarnação do Demônio não é um filme imune a críticas, até porque é uma obra que pretende ser levada à sério. E, nesse sentido, a volta de Zé do Caixão não é perfeita. É bem verdade que Marins inicia seu filme de uma maneira primorosa, criando uma seqüência de uma tensão absurda, ao revelar o medo e o inconformismo do policial vivido por Luís Melo ao ter de libertar o coveiro assassino. A julgar por seu início, Encarnação do Demônio tinha tudo para ser uma obra-prima. Porém, quando Zé do Caixão assume as rédeas da trama, os problemas começam. Primeiramente, é preciso reconhecer que Marins não é exatamente um grande ator, o que acaba tornando seu personagem menos verossímil do que deveria ser, comprometendo assim, a relação de pavor que o espectador deveria estabelecer com este. No entanto, não reside aí o maior equívoco do filme. Ao jogar o personagem de Marins numa favela da São Paulo atual, marcada pela violência e pelas drogas, o diretor e o roteirista Dennison Ramalho (que atualizou o roteiro escrito por Marins nos anos 60) tinham nas mãos uma premissa extremamente promissora: colocar Zé do Caixão como uma figura anacrônica, com sua capa preta, unhas grandes e comportamento bizarro em um mundo totalmente diverso daquele em que ele vivia até ser preso poderia aumentar consideravelmente o terror em torno do personagem. Afinal de contas, o coveiro viveria num mundo que não consegue compreender e que, por conseguinte, não o compreende, o que tornaria seus atos de violência absurda e sua obsessão pela mulher perfeita para gerar seu tão sonhado filho ainda mais assustadores e difíceis de serem combatidos. Mas não é exatamente isso que acontece. Marins e Ramalho apostam em criar personagens que parecem viver no mesmo universo de Zé do Caixão, o que acaba gerando figuras extremamente estereotipadas, como o padre vivido por Milhem Cortaz e principalmente os irmãos policiais interpretados por Jece Valadão e Adriano Stuart. Encarnação do Demônio tem seus méritos, é verdade, especialmente ao criar algumas cenas muito boas (como a assustadora ida do protagonista ao purgatório, onde temos uma participação deliciosa de José Celso Martinez Corrêa, e o sexo delirante banhado a sangue, numa clara referência a Coração Satânico, além das angustiantes seqüências de tortura, que não ficam devendo a nenhum torture porn norte-americano) e, principalmente, por trazer de volta um personagem tão importante na história do cinema brasileiro. Só o fato de poder assistir a um filme de Zé do Caixão nos cinemas já é algo memorável e merecedor de aplausos. Mas, como filme, poderia ser muito mais.


por WALLACE ANDRIOLI GUEDES * 9:44 PM

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[Segunda-feira, Agosto 18, 2008]


OUTROS FILMES - JULHO

Esses foram os filmes que assisti em julho e que ainda não haviam sido comentados aqui:


Violência Gratuita (Funny Games)
Direção: Michael Haneke


Sob o Domínio do Medo (Straw Dogs)
Direção: Sam Peckinpah


Crash - Estranhos Prazeres (Crash)
Direção: David Cronenberg


Não Estou Lá (I'm Not There)
Direção: Todd Haynes


O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro
Direção: Glauber Rocha


A Família Savage (The Savages)
Direção: Tamara Jenkins


O Suspeito (Rendition)
Direção: Gavin Hood


Sicko - S.O.S. Saúde (Sicko)
Direção: Michael Moore


O Cozinheiro, o Ladrão, Sua Mulher e o Amante (The Cook, the Thief, His Wife and Her Lover)
Direção: Peter Greenaway



É uma experiência curiosa e instigante assistir e comparar dois filmes tão parecidos, mas ao mesmo tempo diferentes, como Violência Gratuita e Sob o Domínio do Medo. O primeiro é um trabalho magnífico de Michael Haneke. Mais do que um grande filme sobre a presença da violência nas sociedades contemporâneas, algo que essa obra é, o diretor austríaco fez um fascinante, instigante e provocador estudo acerca do culto à violência promovido pelos meios de comunicação, especialmente pelo cinema, nos dias atuais. Sem utilizar-se de exageros gráficos, que um filme como esse poderia pedir, Haneke aposta em um exercício narrativo único, que acaba se revelando genial quando, próximo ao epílogo de Violência Gratuita, o diretor tira da manga sua grande sacada, num dos momentos mais surpreendentes que o cinema recente presenciou. É uma cena extremamente frustrante, devido ao envolvimento provocado pela história contada, e, justamente por isso, um tapa na cara do espectador que é, na visão de Haneke, partícipe e consumidor da violência exposta no cinema. É a cena que eleva o filme a um patamar ainda maior, revolucionando a relação entre realidade e ficção e revelando as verdadeiras intenções do diretor, mas é preciso dizer que Violência Gratuita é mais do que isso. É um filme dono de um clima angustiante, sufocante, que mexe com os nervos do espectador, e com um elenco impressionante, que torna assustadoramente palpáveis tanto o sadismo (aqui, o maior destaque é o apavorante Arno Frisch) quanto o sofrimento (aqui, merecendo aplausos o casal de protagonistas, Ulrich Mühe e Susanne Lothar) que marcam a narrativa. Um filme memorável. Altamente subversivo, Sob o Domínio do Medo (péssima tradução do título ...) é um ótimo símbolo do cinema norte-americano da década de 1970, ainda que não seja o mais famoso e nem o melhor exemplar de tal período. Ousado, despudorado, politicamente incorreto e violento, o filme é brilhante. Dirigido pelo sempre polêmico Sam Peckinpah, é um excelente exercício de tensão e é, principalmente, um envolvente e catártico drama. Peckinpah coloca o espectador no cotidiano do casal de protagonistas, levando-o a sentir de forma angustiante a tensão crescente que cerca aquele ambiente, levando a uma grande identificação com os personagem principais, especialmente com o matemático vivido por um inspirado Dustin Hoffman (talvez na melhor interpretação de sua carreira). É por isso que, após tanto sofrimento e humilhação (a cena do estupro, muito bem filmada pelo diretor, talvez seja o ápice disso), vibramos tanto com o epílogo de Sob o Domínio do Medo, uma experiência verdadeiramente catártica. É um grande filme, uma obra-prima sobre os sentimentos primitivos que habitam no interior do homem "civilizado" e que, quando finalmente libertados, promovem uma grande satisfação. É o homem descobrindo a si próprio, diante de nossos olhos. Palmas para Peckinpah. No entanto, o que chama a atenção é a semelhança das histórias contadas pelos dois filmes e a, aperente, oposição entre a conclusão chegada pelos diretores. Num primeiro olhar, poderíamos considerar Violência Gratuita uma crítica a filmes como Sob o Domínio do Medo. Afinal de contas, o que Haneke critica é justamente essa compactuação do espectador com a violência praticada pelos personagens fílmicos, no caso, praticada pelo personagem de Hoffman. Mas me parece que o que Peckinpah pretende talvez seja justamente realizar um "estudo" desse comportamento humano, proximamente ao que Haneke faria quase 30 anos depois. Peckinpah constata essa natureza humana recalcada, mas revelada em momentos extremos, o mesmo que Haneke faz em Violência Gratuita, ainda que, claramente, dotado de um espírito crítico mais acentuado. Em suma, são dois grandes diretores no auge de seus talentos, dando mostras brilhantes de seus cinemas. Dois lados de uma mesma moeda, duas obras-primas.
Um dos filmes mais polêmicos já realizados, Crash não foi para mim tudo o que esperava. Com uma história tão provocante e bizarra nas mãos de um diretor tão peculiar e original como David Cronenberg, o filme tinha tudo para ser uma obra-prima. Mas, ao contrário do que fez em outros de seus trabalhos (especialmente nos recentes Marcas da Violência e Senhores do Crime), Cronenberg não opta aqui por um cinema tão visceral e brutal, fazendo uma obra que é um misto de bizarro e sexy, o que acaba soando como o tom errado para essa história. Sei que é um pecado dizer isso de um filme de David Cronenberg, mas em alguns momentos Crash lembra um cinema erótico, mais preocupado em excitar o espectador do que em contar uma história. Talvez esteja exagerando. Mas, enfim, é bom dizer que Crash tem seus méritos: se era sexy e excitante que Cronenberg queria que seu filme fosse, foi isso que ele conseguiu. Além disso, há um ótimo elenco, onde se destacam um assustador Elias Koteas e uma indescritível Deborah Kara Unger. Em suma, é um ótimo filme mas que, vindo de quem vem, poderia, e deveria, ser mais.
Não Estou Lá não é um filme fácil de se assistir e, principalmente, de se compreender. Ao invés de apostar em uma cinebiografia musical tradicional, como ocorre nos recentes Ray e Johnny & June, o diretor Todd Haynes resolver filmar a vida de Bob Dylan de uma forma bastante inesperada (mas extremamente apropriada): com o cantor sendo representado por seis atores diferentes e não tendo seu nome dito na tela em nenhum momento sequer. Não Estou Lá é um filme conceitual sobre Bob Dylan. Mais do que uma obra sobre a vida do cantor, é sobre a sua música. É lógico que a ousada empreitada de Haynes poderia dar errado, caso não colocasse os elementos certos nos lugares certos e não contasse com um grande elenco. Mas em Não Estou Lá, tudo sai nos conformes. Se não temos uma história propriamente dita para nos envolvermos, somos, por outro lado, tragados para o universo musical de Dylan, sentimos profundamente suas influências, suas diferentes fases, e nos apaixonamos, novamente, por sua música. E quanto ao elenco, o filme é bastante afortunado. Christian Bale, Heath Ledger, Marcus Carl Franklin, Ben Wishaw e mesmo Richard Gere estão ótimos, compondo com talento as diferentes facetas de Dylan. Mas é Cate Blanchett quem se destaca, quem incorpora, de forma inusitada, com maior paixão a música do cantor. É a prova definitiva do imenso talento dessa grande atriz (não é qualquer uma que interpreta com tamanho brilhantismo um homem, e além disso, um homem como Bob Dylan). É bem verdade que o filme é bastante confuso em determinados momentos o que, juntamente com sua longa duração, acaba tornando-o um pouco cansativo. Não Estou Lá não é, e não deve ser, um filme fácil de se compreender. Assim como Bob Dylan.
Apesar de ser uma espécie de continuação de uma de suas principais obras (Deus e o Diabo na Terra do Sol), O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro é um filme diferente em muitos aspectos do cinema feito até então por Glauber Rocha. Há aqui poucos sinais de uma suposta "missão" estético-política, que permeava seus longas anteriores (inclusive Terra em Transe, sua obra-prima), e uma preocupação muito maior com o desenvolvimento da história, da trama e dos personagens. E, nesse sentido, Glauber realiza um grande trabalho, ao lado de Maurício do Valle, na construção do personagem Antônio das Mortes. Eles fazem do matador de cangaceiros um homem solitário, amargurado, perdido no mundo, uma figura anacrônica em um mundo onde não há mais espaço para tipos como o dele e que, diante da possibilidade de um último duelo com um representante do cangaço, reencontra um sentido para sua existência, ainda que reconhecendo isso com amargura. É um trabalho brilhante do ator, muito bem conduzido pelo diretor cinemanovista. Sendo o primeiro longa colorido de Glauber, com um visual que em muito se assemelha com outros filmes produzidos nesse período do Cinema Novo (conhecido como "canibal-tropicalista"), O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro é uma obra apaixonada e apaixonante, intensa e poderosa dramaticamente. Não é o melhor filme do diretor, mas é o mais cinematográfico deles.
Apesar de ser um típico drama familiar "indie" norte-americano, A Família Savage consegue ser um grande filme, graças, principalmente, ao roteiro de Tamara Jenkins (também diretora), que cria situações e diálogos maravilhosos para seus personagens, e ao elenco, encabeçado por um excepcional casal de protagonistas: Phillip Seymour Hoffman e Laura Linney. Os dois possuem uma química excepcional, tornando absolutamente palpável para o espectador a relação entre os irmãos Savage, as diferenças entre os dois e o que os une. Linney chama mais a atenção à primeira vista, comovendo com sua personagem insegura e amargurada, criando algumas cenas bastante boas (como, por exemplo, seus momentos juntos com o enfermeiro nigeriano). Mas, se olharmos mais atentamente, veremos que é de Seymour Hoffman o grande desempenho de A Família Savage. Extremamente contido, o ator dá um show de humanidade e amargura, de uma forma extremamente simples. E quando tem uma explosão dramática, em um diálogo marcante com a personagem de Linney, cria o momento mais poderoso dramaticamente do filme. Talvez, aliás, simplicidade seja a palavra perfeita para definir A Família Savage. Simples, mas marcante.
Seguindo a onda dos filmes sobre a atuação dos EUA no Oriente Médio, O Suspeito é um trabalho competente do diretor sul-africano Gavin Hood, mas que peca principalmente pela falta de ousadia. O elenco é bom (ainda que não tenhamos nenhuma atuação que mereça grande destaque) e a premissa da "extreme rendition" é, não só extremamente interessante, quanto bastante provocativa com a realidade da política norte-americana. Hood aproveita bem dessa premissa para criar no espectador um sentimento de revolta e indignação com o que é mostrado, ao mesmo tempo que constrói com eficiência o drama do personagem de Omar Metwally e de sua esposa, vivida por Reese Witherspoon. No entanto, conforme se aproxima de seu final, O Suspeito vai se revelando exageradamente convencional e, quando o filme acaba, a sensação de frustração é inevitável. A escolha de Hood acaba se revelando verdadeiramente medíocre, uma vez que, um filme com uma temática como essa, pedia, ou melhor exigia, um epílogo mais ousado e contundente. É por ficar no meio do caminho que O Suspeito se torna uma obra infinitamente inferior a que deveria ser.
Amando ou odiando o cinema de Michael Moore (e também sua figura), é inegável que seus documentários são únicos e totalmente eficientes em seus propósitos. Com S.O.S. Saúde não é diferente. Assim como em Tiros em Columbine e Fahrenheit 11 de Setembro, Moore é manipulativo, parcial e maniqueísta. Mas ele sabe fazer as piadas certas nas horas certas, tem um timing político impressionante e tem uma militância que, por mais exagerada que possa parecer, tem uma parcela grande de razão. Aqui, Moore entrega um filme que tem seus melhores momentos em seu início, quando elabora um revoltante retrato dos serviços de saúde norte-americanos, e no final, quando faz aquela que é provavelmente a mais ousada, contundente e bem sacada crítica ao governo norte-americano, ao levar heróis do 11 de Setembro para serem tratados em Cuba. No meio, Moore tem um filme envolvente, que consegue a proeza de não cansar o espectador em nenhum momento, ainda que soe excessivamente inocente ao analisar o sistema de saúde de outros países. Mas, para quem acompanha o cinema do diretor, sabe que isso faz parte de sua obra, além do quê, seria um pouco demais pedir que Moore realizasse um estudo aprofundado de todos os benefícios e prejuízos de se privatizar ou estatizar a saúde em cada um dos países mostrados. S.O.S. Saúde tem um alvo muito claro e um objetivo bem definido. Tal alvo (o governo norte-americano e as grandes corporações beneficiadas por este) é acertado em cheio e seu objetivo é cumprido com exatidão.
Fascinante, apaixonante e estonteante essa meu primeiro contato com o cinema de Peter Greenaway. O Cozinheiro, o Ladrão, Sua Mulher e o Amante é um filme difícil de ser comentado. Grotesco desde sua primeira cena, o trabalho de Greenaway é permeado por uma tensão quase insuportável, graças, principalmente, ao belo trabalho de Michal Gambom como um assustador, explosivo e imprevisível gângster (o "ladrão" do título), responsável por momentos que marcam por sua violência absurda. Mas é também um filme de uma beleza impressionante, revelada pela delicada e condenada relação entre a personagem de Helen Mirren (a mulher do ladrão), num desempenho estupendo, talvez o melhor de sua carreira (ao lado de A Rainha), e seu amante. As cenas entre os dois são um misto de sensualidade, desejo reprimido e redenção, que chegam a emocionar. E, obviamente, Greenaway também tem seus méritos, que não são poucos. Sua direção é primorosa, não só por criar essas cenas mais belas ou as mais assustadoras, mas princiapalmente pela maneira como as filma, com um talento único. E seu roteiro é de um brilhantismo inacreditável, ao mesmo tempo que é absurdamente simples. Brilhantismo que alcança seu ápice em seu ousado, grotesco, inacreditável e catártico epílogo. Greenaway insere na história de O Cozinheiro, o Ladrão, Sua Mulher e o Amante um elemento extremamente rico e complexo, que torna o filme ainda melhor do que já era: a antropofagia. A antropofagia aqui se torna um ato de vingança suprema, mas, curiosamente, não para aquele que devora, mas para quem é devorado (corro o risco de estar aqui estragando as melhores surpresas do filme). Obra-prima.


Melhor: O Cozinheiro, o Ladrão, Sua Mulher e o Amante
Pior: O Suspeito


por WALLACE ANDRIOLI GUEDES * 11:06 AM

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[Segunda-feira, Julho 28, 2008]

Hancock (idem)
Direção: Peter Berg


Ainda estou à procura de um motivo plausível para a existência de Hancock. Por mais que a idéia de contar a história de um super-herói mal-visto pela população, alcólotra e politicamente incorreto seja uma idéia atraente, a meneira como ela foi executada é completamente equivocada. O filme é um amontoado de erros, tanto em sua primeira parte, quando aposta mais claramente na comédia, quanto em sua metade final, quando adquire um tom supostamente mais sério. Como seria de se esperar, Will Smith se sai razoavelmente bem no papel do protagonista, especialmente nos momentos cômicos de Hancock. Smith é um grande ator e consegue tornar um personagem extremamente mal-desenvolvido em alguém minimamente interessante. E ao seu lado ainda tem o cada vez melhor Jason Bateman, que interpreta o sujeito mais humano e convincente do filme. No entanto, ainda com esses acertos no elenco, Hancock é fraco enquanto comédia, com piadas grosseiras e repetitivas, e enquanto longa de ação, com seqüências pouco inspiradas e previsíveis. E quando tudo já parecia ruim o bastante, o diretor Peter Berg consegue tornar seu filme ainda pior: lá pela metade de Hancock, há uma reviravolta no roteiro, envolvendo uma importante personagem e que deveria dar à história um caráter mais sombrio e dramático. Entretanto, isso está longe de acontecer. Berg e os roteiristas Vincent Ngo e Vince Gilligan apostam na criação de uma mitologia que até poderia ser interessante, mas que é apresentada de forma apressada e confusa, soando como pura pretensão dos responsáveis pelo filme. O tal passado do herói acaba se mostrando uma grande bobagem, sem sentido, e o processo de auto-descoberta do personagem é de uma fraqueza impressionante, ainda mais se lembrarmos que o cinema já realizou algo semelhante de forma muito melhor, em Corpo Fechado. E, para completar, ainda tem a tentativa estúpida de inserir na trama um vilão que represente uma ameaça ao herói e que, por ser feita de forma desastrada, sem o menos cuidado, acaba resultando em algo risível e, na verdade, muito pouco ameaçador (ainda que o tal antagonista seja interpretado pelo bom Eddie Marsan). Num ano de super-heróis interessantes como Tony Stark/Homem de Ferro e Bruce Banner/Hulk e em que O Cavaleiro das Trevas elevou os "filmes de herói" a um novo patamar, Hancock parece anacrônico, um filme fora do lugar. Em resumo, uma grande bobagem.


Wall-E (idem)
Direção: Andrew Stanton


Como não sou um grande fã de animações em geral, não costumo esperar grandes inovações de filmes vindos desse gênero, ainda mais dos produzidos em Hollywood. Entretanto, vale dizer que, quando se trata de um novo longa da Pixar, trato logo de reavaliar essa minha premissa. Isso porque, apesar de os filmes produzidos no estúdio carregarem ainda boa parte dos clichês que tornaram a animação norte-americana tão poderosa e querida mundo afora (ou seja, os clichês criados e reproduzidos pelos desenhos da Disney), os trabalhos de gente como John Lasseter, Brad Bird e Andrew Stanton geralmente possuem uma sensibilidade e uma maturidade dificilmente notadas nos filmes do gênero. No entanto, o que Stanton e a Pixar fizeram nesse Wall-E é diferente. A inovação aqui não está simplesmente em contar uma história com competência e delicadeza, sem se preocupar tanto em acumular referências a cenas de filmes famosos (como costumam fazer as animações da Dreamworks, por exemplo). Ela se dá no campo da narrativa. Isso porque é no mínimo inusitado presenciar, em plena era digital, onde o grande cinema norte-americano aposta cada vez mais em imagem e som grandiosos, uma superprodução de um grande estúdio, que mais do que um simples filme é um grande evento e que deveria ser voltada para todos os públicos, apostar em uma história que, além de ter cenário e temática apocalípticos, ainda conta com boa parte de sua narrativa sem um diálogo sequer. E é exatamente isso que Stanton faz em Wall-E, e com uma competência impressionante. Especialmente em sua primeira parte, o filme beira o brilhantismo, ao desenvolver com uma graça impressionante um personagem que se mostra adorável, um misto de E.T. e Carlitos, e ao optar por construir uma narrativa baseada quase que totalmente em imagens, numa belíssima homenagem ao cinema mudo (apesar de também ser de imensa importância nessa primeira metade de Wall-E o uso de sons e ruídos). É bem verdade que, ao mudar o cenário de sua trama e inserir os humanos na história, o filme cai um pouco, ainda que apresente algumas questões bastante ousadas e inesperadas em uma obra como essa (como, por exemplo, o comportamento dos humanos surgidos em cena) e consiga ser uma aventura empolgante. É verdade também que Wall-E decepciona com um final rápido e abrupto, que não explora melhor as potencialidades do ocorrido. No entanto, é preciso reconhecer que este é um filme primoroso, apesar de não ser o melhor da Pixar (Ratatouille ainda é melhor), principalmente por recuperar de forma tão perfeita um princípio simples do cinema, mas que parece tantas vezes esquecido: contar uma grande história através simplesmente das imagens. E por, no fim das contas, ser o que grande parte dos filmes mudos era de forma tão adorável: uma linda história de amor.


por WALLACE ANDRIOLI GUEDES * 6:43 PM

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[Sábado, Julho 19, 2008]

Batman - O Cavaleiro das Trevas (The Dark Knight)
Direção: Christopher Nolan


Não entendo nada de quadrinhos. Ainda que tenha um certo interesse e admiração por tal arte, li um número muito pequeno de HQ's, tão pequeno que não merece nem consideração. Se falarmos só do Batman então, esse número diminui ainda mais: restringe-se apenas à ótima Batman: Ano Um. Mesmo assim, me considero um fã do homem-morcego. Desde os filmes de Tim Burton, com todos seus defeitos que reconheço hoje, sempre admirei o personagem e julguei-o mais interessante que outros heróis. E acompanhando essa saga de Batman no cinema, juntamente com a admiração crescente pelo personagem (mesmo nos momentos tragicômicos proporcionados por Joel Schumacher), cheguei a uma conclusão. É uma conclusão que não se embasa em nenhum grande conhecimento da história do herói, e que não é, de forma nenhuma, a voz de um expert nos quadrinhos do Batman. É apenas uma intuição de alguém que gosta muito de cinema e que aprendeu a ser fã desse personagem, e que os filmes de Christopher Nolan me ajudaram a confirmar: a história de Bruce Wayne/Batman só consegue ser captada em toda sua complexidade e dramaticidade pelo cinema quando se opta pela atmosfera realista, de thriller policial, e por focar-se nas sombras que envolvem essa história. E quando falo em sombras, não me refiro ao visual gótico utilizado por Burton, mas às trevas internas dos personagens que permeiam Gotham City. Nolan compreendeu isso como poucos e, em Batman Begins, já havia feito uma aposta nesse sentido, ao realizar um filme de origem totalmente focado na figura do herói que se veste de morcego, investigando suas motivações, seus traumas e suas escolhas. Batman Begins é um belíssimo filme sobre o medo. Mas que se apequena assustadoramente diante dessa sua seqüência. Em Batman - O Cavaleiro das Trevas, Nolan radicaliza suas opções dramáticas e entrega uma obra que, apesar de ter um "herói" fantasiado de morcego e um vilão que se veste como uma palhaço, tem muito pouco do que nos acostumamos a chamar de "filme de super-herói". Aliás, não há muito espaço para heroísmos na trama criada pelos irmãos Nolan: os personagens que seriam os tradicionais "heróis" da trama, Jim Gordon, Harvey Dent e Batman, são na realidade apenas homens atormentados pela violência, imersos nas sombras e num mundo onde a linha que separa heróis e vilões é cada vez mais tênue. Dent e Batman retratam isso de forma mais explícita. Se o primeiro é um homem público de comportamente supostamente impecável, um idealista apaixonado por seu trabalho e corajoso o suficiente para enfrentar a máfia de Gotham City, mas que já traz em si uma faceta psicopata, de uma pessoa capaz de fazer de tudo para defender aquela que ama e que sente um certo prazer em jogar com a vida de seus inimigos (e, nesse sentido, a interpretação de Aaron Eckhart é nada menos que impecável, fazendo de Dent um sujeito altamente identificável pelo espectador, e retratando de forma brilhante sua tragédia), o homem-mocego se torna aqui uma figura ainda mais complexa do que a mostrada no filme anterior. Bruce Wayne é um sujeito exausto, que carrega as marcas de seu combate ao crime e que sofre duramente as conseqüências de seu vigilantismo. E Batman é um "herói" cada vez mais solitário e incompreendido, que trafega entre o amor e o ódio da população de Gotham e que vai se tornando, no desenrolar da trama, um personagem mais e mais violento e sombrio. Nesse sentido, a maneira como Christopher Nolan encerra O Cavaleiro das Trevas é não menos que brilhante. Um dos mais belos, melancólicos e impactantes finais que o cinema recente assistiu. Mas é impossível falar de Batman - O Cavaleiro das Trevas e não citar Heath Ledger e seu Coringa. Dizer que ele faz a versão do personagem criada por Jack Nicholson em 1989 desaparecer de nossa memória já se tornou lugar-comum, mas não deixa de ser por isso a mais pura verdade. Mas Ledger vai além e prender sua interpretação à uma comparação com a de outro ator impede-nos de alcançar a grandiosidade de seu trabalho. O ator imerge de forma assustadora na personalidade psicopata do personagem e o resultado é simplesmente um dos maiores vilões da história do cinema. Um agente do caos, como o próprio Coringa se apresenta, um símbolo da violência, sem passado e sem história que passa por Gotham como um caminhão desgovernado. É uma criação muito próxima ao Anton Chigurh de Javier Bardem em Onde os Fracos Não Têm Vez. Mas, ainda assim, o Coringa de Ledger é mais. É um monstro assustador, mas inexplicavelmente fascinante. É, em um certo sentido, a alma gêmea de Batman. Se sem ele O Cavaleiro das Trevas já era um filme magnífico, com o Coringa de Ledger o filme se torna único, um verdadeiro marco nas adaptações de HQ's para o cinema. Ele eleva estas a um novo patamar, a ser buscado pelos próximos exemplares que virão do "gênero". Mas, sejam eles quais forem, dificilmente conseguirão repetir a experiência épica, dolorosa e extasiante proporcionada por essa obra-prima de Christopher Nolan. Um filme perfeito, da primeira à última cena.


por WALLACE ANDRIOLI GUEDES * 6:57 PM

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[Sexta-feira, Julho 11, 2008]


OUTROS FILMES - JUNHO

Esses foram os filmes que assisti em junho e que ainda não haviam sido comentados aqui:


Os Indomáveis (3:10 to Yuma)
Direção: James Mangold


Across the Universe (idem)
Direção: Julie Taymor


Os Inconfidentes
Direção: Joaquim Pedro de Andrade


O Orfanato (El Orfanato)
Direção: J. A. Bayona


Império dos Sonhos (Inland Empire)
Direção: David Lynch



É curioso o que acontece no gênero western: quando este parece não ter mais nada de interessante a oferecer, surge algum diretor apaixonado pelo mais tradicional exemplar do cinema norte-americano e realiza um grande filme. Esse Os Indomáveis é mais um exemplo disso. Nesse caso, o eclético James Mangold fez uma escolha um tanto interessante, que acabou sendo fundamental para o êxito do filme: unir os mais tradicionais aspectos do gênero (pistoleiros implacáveis, grandes duelos, ambição etc.) ao cinema de ação contemporâneo. Assim, Os Indomáveis é um filme com ritmo acelerado e com uma atmosfera extremamente tensa, digna dos melhores thrillers da atualidade. Mangold cria seqüências envolventes e espetaculares, que muitas vezes nos fazem esquecer que estamos assistindo a uma história passada no século XIX. No entanto, não é só isso que chama a atenção no filme. Há uma surpreendente e apropriada violência que perpassa toda a trama, e que culmina em cenas verdadeiramente impactantes, especialmente quando o diretor busca mostrar a crueldade do personagem de Russell Crowe (seu ataque a um de seus guardas durante a madrugada é especialmente marcante). Nesse sentido, Mangold acerta em cheio ao nos lembrar que aqueles eram tempos violentos, uma violência tão ou mais feroz que a que vemos hoje em dia. E, já que falamos de Crowe, chegamos ao terceiro grande êxito de Os Indomáveis: seu elenco. O diretor tem em suas mãos uma dupla de protagonistas espetacular, que propicia ao espectador um belo duelo de interpretações. E, apesar de Christian Bale ser um grande ator (vivendo um ótimo momento na carreira) e dar vida de forma instigante ao seu personagem, tornando-o uma figura humana admirável por sua simplicidade, a vitória nesse duelo é de Russell Crowe. Talvez por ter em suas mãos uma figura mais fascinante, mas com certeza também por seu imenso talento, o ator faz de Ben Wade uma figura ao mesmo tempo aterradora e apaixonante, capaz de atos de extrema crueldade, mas mantendo uma certa aura de honradez. A relação entre os dois é o que move o filme, e só acaba, em minha opinião, se tornando um pouco artificial em seu epílogo, quando Wade tem uma mudança de atitude que soou um pouco exagerada. Esse é o único deslize do filme que, contando ainda com um assustador e impressionante Ben Forster, que passa toda a narrativa como uma ameaça constante, se revela como um excepcional western e, mais ainda, como um grande filme de ação. James Mangold acertou em cheio.
A idéia de Across the Universe era muito boa: fazer um filme-síntese da efervescente geração dos anos 60 em uma narrativa toda estruturada a partir de músicas dos Beatles. O resultado foi um bom filme, mas que, levando-se em conta a temática abordada e o potencial que possuía, poderia, e deveria, ser muito mais. A diretora Julie Taymor (do fraco Frida) até cai bem no comando dessa história, uma vez que seus maneirismos visuais dão um ar psicodélico propício à história. Em determinados momentos, as opções de Taymor elevam o filme a um patamar bastante alto, criando seqüências musicais belamente filmadas (talvez a melhor de todas seja a do recrutamento do personagem de Joe Anderson, ao som de "I Want You"). No entanto, mesmo possuindo uma estética própria que rompe com alguns padrões, falta ousadia à diretora. Nesse sentido, Across the Universe é um filme excessivamente longo, por vezes cansativo e, de certa forma, tradicional. Explico a partir da comparação com dois filmes: Moulin Rouge e Não Estou Lá. Falta ao filme o ritmo acelerado e envolvente do primeiro e a ousadia narrativa do segundo. Esses são dois exemplares que, tendo a música como centro de suas narrativas, apostaram na radicalização e obtiveram grande êxito. Across the Universe, infelizmente, fica no meio do caminho, uma vez que, para uma compreensão mais ampla e complexa tanto dos Beatles quanto daquela geração retratada pelo filme faz-se necessária uma experiência mais radical. É difícil não imaginar o que um Baz Luhrmann faria com um material desses em mão. Mas, ainda assim, vale elogiar alguns pontos do filme, como seu jovem e talentoso elenco (onde se destaca Jim Sturgess) e sua capacidade de, apesar de todos os pesares, envolver o espectador naquela história de amor, levando-nos à emoção em seu belo final.
Se alguém assistir a Os Inconfidentes buscando uma aula de História do Brasil ali vai se decepcionar profundamente. Pois, ainda que utilize como fonte importante para a construção de sua narrativa os "autos da devassa", Joaquim Pedro de Andrade busca com o filme muito mais realizar uma análise do contexto político em que vivia do que um retrato histórico da Inconfidência Mineira. E é preciso dizer que, como era de se esperar vindo do diretor de Macunaíma, ele faz isso com brilhantismo. Joaquim Pedro parecia ter o dom de, ao contrário de outros nomes do Cinema Novo, fazer filmes que, sem perder um pingo de complexidade e riqueza, se revelavam acessíveis ao grande público, não tão vanguardistas como outros exemplares do movimento (obviamente, Macunaíma marca o ápice dessa capacidade do diretor). E isso ocorre novamente com Os Inconfidentes. Pois, por mais que às vezes soem cansativos os diálogos recitados dos personagens, a história daqueles personagens é contada de forma intensa pelo cineasta, que faz do movimento oitocentista o mote para uma grande reflexão (já feita por outros filmes cinemanovistas, como Terra em Transe) acerca do papel dos intelectuais nas revoluções. Para compreender essa reflexão, é preciso compreender o contexto vivido por esses cineastas, pós-golpe de 1964 e pós-AI-5, onde estes se viram obrigados a reavaliar seus papéis enquanto "conscientizadores do povo" para uma possível revolução socialista no Brasil. Por isso, assim como acontecia na obra-prima de Glauber Rocha, em Os Inconfidentes temos uma visão bastante negativa desse papel exercido pelos intelectuais e pessimista em relação à realidade brasileira. No entanto, o que torna o filme realmente grande não é apenas isso. É que, mesmo tendo essa preocupação política permeando sua obra, Joaquim Pedro prossegue fazendo, acima de tudo, cinema. E dos bons. Basta avaliar algumas escolhas do diretor nessa sua obra para atestar sua genialidade (desde a utilização excessiva das cores, que remete à atmosfera tropicalista do final dos anos 60, até a seqüência de imagens do epílogo, vê-se o enorme tato cinematográfico de Joaquim Pedro). Está entre os maiores filmes do cinema brasileiro.
O Orfanato é uma agradável surpresa. O diretor estreante J. A. Bayona consegue dar um fôlego novo a um gênero de onde se espera cada vez menos novidades: o suspense sobrenatural. Lembrando um pouco o excepcional Os Outros (também comandado por um espanhol, Alejando Amenábar), mas com o padrão de qualidade Guillermo del Toro (produtor do longa), O Orfanato encanta por conjugar, com uma competência impressionante, o horror e o drama. Assim, se por um lado o filme de Bayona traz alguns momentos aterradores, capazes de provocar arrepios no mais corajoso dos espectadores (cito como exemplo a seqüência do desaparecimento do menino Simón, uma apavorante cena de atropelamento, a intensa e tensa participação de Geraldine Chaplin como uma médium e a parte final do filme, quando a protagonista finalmente enfrenta os fantasmas que ameaçam sua família), ao mesmo tempo ele consegue fazer um drama poderoso, uma vez que, no fim das contas, O Orfanato é uma história de amor materno e, como tal, se revela extremamente emocionante. E, nesse sentido, é de imensa importância para o filme a interpretação de Belén Rueda. A atriz dá veracidade à dor da personagem Laura, criando uma mulher angustiada com a perda do filho e obcecada por reencontrá-lo. O drama de Laura é palpável para o espectador graças ao desempenho de Rueda, o que torna o final de O Orfanato ainda mais doloroso (ainda que não deixe de ser um final feliz). Um belo filme.
Vindo de David Lynch, faz-se totalmente desnecessário dizer que Império dos Sonhos não é um filme fácil de se assistir. Até porque aqui o diretor radicaliza a proposta apresentada na obra-prima Cidade dos Sonhos, elevando a um patamar superior a mistura entre realidade e imaginação que já marcava seu filme anterior. Daí, esse seu novo trabalho se torna ainda mais hermético, de certo modo voltado apenas para seus fãs. O que não torna menor seu brilhantismo, ainda que não chegue à perfeição alcançada no longa de 2001 (na minha opinião, o melhor filme de Lynch). A questão é que, entendendo ou não a história que está sendo contada pelo diretor, é impossível não se envolver com esta, graças ao controle absoluto que Lynch possui do seu ofício. Assim, é inevitável se angustiar com a saga da personagem vivida de forma estupenda por Laura Dern, se perder junto com ela naquele emaranhado de referências, sonhos, delírios e realidade e sentir a tensão dos momentos em que o diretor se aproxima mais claramente do cinema de horror (aliás, é interessante notar como em quase todos os filmes de Lynch há uma atmosfera de horror, devido principalmente ao caráter de imprevisibilidade de suas obras). E Império dos Sonhos só não consegue chegar ao mesmo nível de Cidade dos Sonhos justamente por essa radicalização de Lynch, que, ao alongar demasiadamente a narrativa, torna a sucessão de imagens aparentemente sem sentido um tanto cansativa, algo que não ocorria no filme anterior (quando aquele começava a ficar "estranho", já estávamos por demais envolvidos para termos nossa fé naquela história abalada). No entanto, quando a narrativa retorna para a "realidade", numa maravilhosa cena numa calçada de Hollywood, o filme volta a ser uma experiência absurdamente impactante, que passa com brilhantismo a sensação de viver o pesadelo hollywoodiano. E me parece que era essa a intenção de Lynch.


Melhor: Os Inconfidentes
Pior: Across the Universe


por WALLACE ANDRIOLI GUEDES * 5:53 PM

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[Segunda-feira, Julho 07, 2008]


Um Beijo Roubado (My Blueberry Nights)
Direção: Wong Kar-Wai


É com graça e impressionante leveza que o badalado diretor chinês Wong Kar-Wai estréia no cinema norte-americano. Um Beijo Roubado não é uma obra-prima, não é um filme dramaticamente poderoso e impactante, capaz de provocar grandes emoções no espectador. É sim um drama romântico direto, sem rodeios, e de imensa delicadeza. É, de forma totalmente coerente com a filmografia de Kar-Wai, uma bela história de amor. E o diretor sabe contar belas histórias de amor como poucos (quem teve o prazer de assistir Amor à Flor da Pele sabe muito bem disso). Sob seu comando, vemos um excepcional elenco desfilar pela tela para contar três histórias de amor que, cada uma a seu jeito, emociona e deixa marcas em nós: em primeiro lugar, temos o romance da personagem de Norah Jones com o dono de um café interpretado por Jude Law (que sabe interpretar sujeitos despojados e independentes como poucos), que na realidade é o motor do filme; em seguida, temos a mais emocionante delas, a trágica relação entre um estupendo e comovente David Strathairn e uma deslumbrante Rachel Weisz; e, por fim, surge em cena a personagem de Natalie Portman, uma jovem rebelde e viciada em jogo que vive um relacionamento complicado com seu pai. É através da personagem de Jones, em sua viagem de auto-descoberta, que essas vidas se tocam e é nela que elas provocarão uma mudança importante para o êxito dessa viagem. Kar-Wai obtém êxito em tornar a jornada da protagonista uma experiência compartilhada pelo público de forma prazerosa, e ainda consegue escapar da estrutura tradicional dos road movies: em Um Beijo Roubado, a estrada importa muito pouco; o que realmente é fundamental são as pessoas que cruzam no caminho de Elizabeth e o amadurecimento da personagem após esses contatos. Nesse sentido, esta é uma viagem muito mais interna do que externa, e o diretor consegue transmitir isso com delicadeza e sem soar pretensioso ou aborrecido. Em momento algum assistir àquela história se torna enfadonho. É bem verdade que, ao contrário do que se poderia esperar, Kar-Wai não se aprofunda muito nas emoções de seus personagens (à exceção, talvez, dos personagens de Strathairn e Weisz), preocupando-se muito mais em fechar o ciclo romântico entre Elizabeth e Jeremy. Mas o fato é que ele faz isso muito bem, com os encontros e desencontros do casal comovendo o espectador e com as cenas dos tais "beijos roubados" tendo um sabor inesquecível para o espectador (a maneira como Kar-Wai filma as duas cenas faz com que sintamos verdadeiramente a experiência daqueles beijos). Provavelmente, o sabor de uma daquelas suculentas tortas de blueberry vendidas por Jeremy.


por WALLACE ANDRIOLI GUEDES * 10:14 PM

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[Sexta-feira, Julho 04, 2008]

O Sonho de Cassandra (Cassandra's Dream)
Direção: Woody Allen


Todos que acompanham a cada vez mais extensa obra de Woody Allen já devem ter pensado, ao menos uma vez, que os filmes do diretor sempre estão tentando dizer alguma coisa. Quando Allen está em cena como ator, essa semelhança entre seus diversos trabalhos fica ainda mais clara, uma vez que sempre interpreta basicamente o mesmo sujeito neurótico e inseguro. No entanto, existe uma outra recorrência em sua filmografia, que, vez ou outra, vem à tona e dá origem a filmes maravilhosos: as referências às tragédias gregas e às noções de culpa, crime e castigo retiradas diretamente de Dostoiévski. Nesse sentido, poderíamos dizer que O Sonho de Cassandra completa uma "trilogia" sobre a relação do homem com seus próprios pecados, iniciada com a obra-prima Crimes e Pecados e continuada no excepcional Match Point. Assim como nos filmes de 1989 e 2005, o que temos aqui são pessoas "comuns", em busca de algo para suas vidas e que se vêem, em algum momento, impelidas ao crime e, conseqüentemente, aos resultados trazidos por seu ato. O mais interessante é que os filmes parecem dialogar entre si: se em Crimes e Pecados, Allen parecia decretar o destino de seu personagem simplesmente por suas escolhas, em Match Point ele acrescentava um novo elemento, a sorte. Por que então fazer O Sonho de Cassandra ? Por que retomar uma discussão que parecia ter sido resolvida pelo diretor e que já havia resultado em dois filmes magníficos ? A resposta vem ao percebermos que, com esse trabalho, Woody Allen ainda tinha o que acrescentar ao dilema proposto há quase 20 anos: em O Sonho de Cassandra, o diretor dá um passo adiante nessa discussão sobre crime e castigo, exacerbando ainda mais o caráter trágico da história que está sendo contada. E o fato é que Allen filma uma tragédia como poucos, e com uma simplicidade absurda. Dos créditos no estilo de sempre, passando pela narrativa linear, sem nenhuma invenção até os diálogos simples e diretos, O Sonho de Cassandra é um filme típico de Woody Allen. E que, por isso, também traz um elenco inspirado. Na verdade, Allen deposita todas as fichas na sua dupla de protagonistas, Ewan McGregor e Colin Farrell (o que não deixa de ser uma aposta um tanto arriscada), e colhe os frutos disso. Enquanto McGregor encarna com perfeição o sujeito ambicioso sorridente e empolado, falso em diversos sentidos mas extremamente humano, Farrell dá um show, entregando o melhor desempenho de sua carreira como um sujeito fracassado e viciado em jogo, mas que acaba revelando-se como um contraponto moral perfeito para a ambição de seu irmão. O sofrimento do personagem com a culpa pelo crime cometido chega a ser angustiante. E o mais importante é que a dupla revela uma sintonia impecável, tornando palpável o amor entre os dois irmãos. Amor que, no fim das contas, parece estar acima de qualquer ambição. E, uma vez reconhecido isso, uma vez reencontrado o que ainda há de bom naqueles homens, a visão pessimista e amarga do mundo de Woody Allen leva-os à desgraça e a uma dura punição, diferentemente do que acontecia com os personagens de Martin Landau e Jonathan Rhys-Meyers nos filmes anteriores. Visão amarga e pessimista do mundo, mas nem por isso (ou melhor, justamente por isso) menos fascinante e apaixonante. Mais uma vez, bravo, Woody Allen.


por WALLACE ANDRIOLI GUEDES * 12:59 PM

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[Quinta-feira, Junho 19, 2008]


O Incrível Hulk (The Incredible Hulk)
Direção: Louis Leterrier


Não tenho nenhum grande problema com o Hulk que Ang Lee dirigiu em 2003, ainda que reconheça ser aquele um filme cheio de defeitos (sendo Nick Nolte o maior deles). Por isso, não me coloco entre aqueles que esperavam de O Incrível Hulk finalmente um grande filme com o personagem, cheio de ação como, supostamente, deveria ter sido o longa de Lee, até porque não animava nem um pouco o fato da direção ter sido entregue ao responsável por Carga Explosiva. É por isso que, como fã de Ang Lee e por natureza desconfiado com o trabalho de Louis Leterrier, tenho que confessar: O Incrível Hulk é um grande filme, para minha total surpresa. E Leterrier é um dos responsáveis por isso, afinal de contas, o sujeito sabe mesmo criar cenas de ação extremamente tensas e empolgantes (todas as aparições do Hulk, desde a primeira, no Rio de Janeiro, até seu duelo com o Abominável são espetaculares, especialmente toda a seqüência de perseguição ao monstro no campus de uma universidade, onde Hulk verdadeiramente esmaga), e, novamente para a surpresa geral, entrega um filme que não se baseia somente nesses momentos de adrenalina, sendo verdadeiramente poderoso em algumas passagens mais intimistas (a cena entre Hulk e Betty Ross numa caverna é muito boa, carregada de uma beleza digna do King Kong de Peter Jackson). Ou seja, por incrível que pareça, Leterrier foi mais bem-sucedido que Ang Lee em criar cenas íntimas emocionantes e uma relação que soe verdadeira entre Bruce Banner e Ross. E, obviamente, para que tanto esses momentos íntimos quanto as cenas de ação funcionem realmente, era preciso superar um problema de Hulk: a criatura em si. Mas aqui, o gigante esmeralda surge, finalmente, em toda sua imponência e força. Não estamos falando mais de um monstro artificial, que, conforme muitos disseram na ocasião do lançamento do filme de 2003, parecia o Shrek, mas sim de um Hulk verdadeiramente ameaçador, violento e raivoso. E o mesmo vale para o vilão Abominável, assustador. No entanto, é preciso dizer que os méritos de O Incrível Hulk não se restrigem aos trabalhos de Louis Leterrier e dos responsáveis pelos efeitos especiais. É em Edward Norton que reside a grande força do filme. Primeiramente porque o ator, fã do personagem dos quadrinhos, foi responsável por diversas mudanças no roteiro, o que nos leva a acreditar que, muito provavelmente, boa parte dos grandes momentos emocionais da história foram criados por ele. E, ao mesmo tempo, como era de se esperar, Norton cumpre de forma impecável a tarefa de interpretar Banner, fazendo dele uma figura profundamente humana, um sujeito angustiado com sua situação e apaixonado por alguém que ele teme ferir. No fim das contas, o que Bruce Banner deseja é simplesmente voltar a ser um homem comum, para poder viver ao lado da mulher que ama, e, nesse sentido, o ator expressa com perfeição essa luta do personagem. É triste ter de dizer isso, mas, diante da interpretação de Norton, o Banner de Eric Bana empalidece absurdamente. Trazendo alguns pequenos incômodos para o espectador brasileiro em sua primeira parte, passada no Brasil (onde os personagens falam um português meio estranho e onde o exército norte-americano invade uma favela sem maiores problemas), O Incrível Hulk é, desde já, a grande surpresa do ano. É um filme empolgante, envolvente, tenso e emocionante. E é um belo recomeço para o personagem no cinema.


por WALLACE ANDRIOLI GUEDES * 12:53 AM

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[Terça-feira, Junho 17, 2008]

Fim dos Tempos (The Happening)
Direção: M. Night Shyamalan


Sempre gostei de M. Night Shyamalan, desde o início de seu sucesso em 1999 e, conforme sua carreira foi se desenvolvendo e seus trabalhos sendo cada vez mais criticados, justamente por se afastarem das expectativas de sempre serem um "novo O Sexto Sentido", minha admiração pelo diretor só foi crescendo, atingindo seu ápice no espetacular A Vila (ainda que, em minha opinião, seu melhor filme ainda seja Corpo Fechado). No entanto, Shyamalan parece confiar cada vez mais em seu público cativo, que o enxerga como alguém dotado de uma visão bastante autoral, o que fez com que seu último filme, o belo A Dama na Água, já exigisse do espectador um grau elevado de cumplicidade para que funcionasse como pretendia. E agora, com esse Fim dos Tempos, o diretor superestima em demasia essa cumplicidade, criando seu primeiro filme ruim. Primeiramente, no entanto, é preciso dizer que, como de costume, a premissa desse novo filme de Shyamalan é instigante e a idéia de Fim dos Tempos é realmente muito boa. O problema é que ela é muito mal desenvolvida. Isso ocorre porque o diretor peca aqui em algo que sempre foi um dos grandes méritos de seus trabalhos: a composição dos personagens e o trabalho com os atores. Se compararmos esse filme a Sinais, por exemplo, isso fica muito claro. Em ambos Shyamalan filma um grande evento, de caráter apocalíptico, a partir da ótica de uma família comum da classe média norte-americana. No entanto, se no filme de 2002 tínhamos Mel Gibson e Joaquin Phoenix se entregando a seus personagens e transmitindo com precisão o clima de angústia e claustrofóbia que tomava conta da narrativa, tornando ótimo um filme cheio de falhas, aqui temos um elenco pouquíssimo inspirado e, para surpresa geral, muito mal dirigido por Shyamalan. O casal de protagonistas decepciona completamente, com um Mark Wahlberg beirando o ridículo, numa interpretação estranha e exagerada, e uma Zooey Deschanel absurdamente abobalhada, e os coadjuvantes não estão muito melhores (talvez com exceção de John Leguizamo, que ainda consegue dar alguma humanidade ao seu personagem, que, infelizmente, é muito pouco desenvolvido pelo roteiro). Obviamente, como estamos falando de um grande diretor de cinema, há alguns momentos muito bons em Fim dos Tempos, especialmente aqueles que envolvem as mortes bizarras na primeira parte da história (há uma cena particularmente angustiante em um zoológico), além de um final na medida, que explicita definitivamente a mensagem que o diretor buscou passar com seu filme. No entanto, isso ainda é muito pouco se levarmos em consideração que estamos falando do sujeito que fez dois dos filmes mais aterrorizantes de todos os tempos (O Sexto Sentido e A Vila) e o mais inteligente e poderoso filme de super-herói que o cinema já viu (Corpo Fechado). Talvez Shyamalan quisesse, com Fim dos Tempos, fazer uma homenagem ao cinema de ficção-científica da década de 1950. Mas, infelizmente, o que ele conseguiu foi simplesmente fazer um filme ruim.


por WALLACE ANDRIOLI GUEDES * 1:20 AM

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[Domingo, Junho 15, 2008]


OUTROS FILMES - MAIO

Esses foram os filmes que assisti em maio e que ainda não haviam sido comentados aqui:


Terra em Transe
Direção: Glauber Rocha


A Lenda de Beowulf (Beowulf)
Direção: Robert Zemeckis


O Preço da Coragem (A Mighty Heart)
Direção: Michael Winterbottom


A Bússola de Ouro (The Golden Compass)
Direção: Chris Weitz


Na Natureza Selvagem (Into the Wild)
Direção: Sean Penn



Um dos maiores clássicos do cinema brasileiro e talvez a obra máxima de Glauber Rocha, Terra em Transe é um filme especial em muitos sentidos. Nele, o diretor parece alcançar o refinamento no tratamento que ainda não havia atingido completamente em Deus e o Diabo na Terra do Sol, criando um filme poderoso e impactante, recheado de alegorias políticas que beiram a genialidade e com um elenco afiado, onde nomes como Jardel Filho, Paulo Autran e José Lewgoy dão show de interpretação. Glauber também acerca na construção de sua narrativa que, por ser um tanto confusa em muitos momentos, dão o exato tom da confusão vivida pelos personagens e pela fictícia El Dorado. No entanto, me parece que Terra em Transe tem um quê de hermetismo que não existia na obra anterior do diretor, que faz com que o filme só seja compreendido de forma completa por quem conhece tanto a história do Brasil da década de 1960 quanto as concepções político-culturais que moviam intelectualmente Glauber e o Cinema Novo. Assim como outros filmes feitos no Brasil no contexto imediato pós-golpe de 1964, Terra em Transe é uma obra mergulhada em melancolia e pessimismo, que busca refletir (e criticar duramente) sobre os caminhos tomados pela esquerda brasileira nos anos que antecederam a ascensão dos militares ao poder. Nesse sentido, o filme de Glauber é impiedoso com os intelectuais de esquerda que se consideravam como arautos da revolução socialista, guias do povo ignorante rumo ao poder, e também com os chamados governantes "populistas", que, na concepção do diretor, possuíam muito mais uma retórica esquerdista do que uma prática verdadeiramente transformadora da sociedade. Glauber parece, então, em Terra em Transe, estar diante de um impasse, uma vez que ele também foi um daqueles intelectuais criticados por seu filme: apoiar políticos pretensamente "populares", mas que acabam traindo as causas que defende ou tentar liderar o povo a uma revolução socialista, sendo que esse mesmo povo é, na concepção do diretor, ignorante e autoritário ? Para Glauber, assim como para o poeta Paulo, ambas opções são equivocadas, e eles acabam por terminar, na belíssima cena final do filme, sozinhos, isoladas, de arma na mão mas sem ter para onde ir. Não é qualquer filme que consegue ser tão rico e tão complexo, aberto a tantas interpretações, como conseguiu Terra em Transe. Foi com ele que Glauber Rocha escreveu, definitivamente, seu nome na história do cinema brasileiro e mundial. De forma bastante merecida, deve-se dizer.
Confesso que me surpreendi com A Lenda de Beowulf. Esperava um filme muito mais infatil e sem expressão, mas Robert Zemeckis conseguiu criar um épico razoavelmente empolgante e envolvente. É bem verdade que, por ser contada através da técnica da captura de movimentos, a história de Beowulf acaba não tendo todo o impacto que poderia ter caso contasse com atores de carne e osso, com locações de verdade e com uma violência que soasse, assim, mais real. No entanto, Zemeckis consegue fazer da experiência de assistir A Lenda de Beowulf uma experiência bastante crível, cria personagens bastante interessantes (principalmente o próprio Beowulf, seu parceiro de batalhas Wiglaf e o rei Hrothgar, vividos por Ray Winstone, Brandan Gleeson e Anthony Hopkins, respectivamente) e se revela um filme bastante maduro em sua segunda metade, quando promove uma passagem de tempo bastante longa e revela um herói amargurado, melancólico e exausto que soa bastante humano. E sem contar que é sempre interessante assistir a uma animação (o que, no fim das contas, A Lenda de Beowulf é) despudorada, que não tem grandes problemas em mostrar cenas de violência (particularmente no momento em que o monstro Grendel, vivido com talento por Crispin Glover, devora um soldado do reino, Zemeckis conseguiu criar em mim, enquanto espectador, uma sensação de angústia inesperada) e nem em fazer insinuações sexuais. Só por isso o filme já merece elogios.
O Preço da Coragem é o primeiro filme de Michael Winterbottom que assisto e que me agrada ao menos um pouco. Geralmente acho o diretor um tanto pretensioso, mas aqui sua câmera nervosa e sua linguagem realista funcionam bem para contar a história angustiante do seqüestro do jornalista Daniel Pearl e da busca por ele realizada por sua esposa. Para conseguir passar toda a sensação de apreensão e de posterior desespero vivida por Marianne Pearl, Winterbottom busca seguir meticulosamente a seqüência de fatos envolvendo o seqüestro, criando uma narrativa frenética e envolvente, ainda que confusa em alguns momentos. Essa linguagem excessivamente "realista" e "jornalística" acaba, por outro lado, por enfraquecer um pouco o filme dramaticamente, algo que, no entanto, é compensado pelo grande desempenho de Angelina Jolie. A atriz se despe totalmente de sua imagem conhecida e se entrega com honestidade ao papel de uma mulher comum e profundamente obstinada por encontrar o homem que ama. A maneira como ela expressa o desespero contido da personagem e, principalmente, como expressa o momento em que esse desespero é enfim extravasado, merece aplausos. Outro acerto do diretor é não mostrar a execução de Daniel Pearl: a cena em que acompanhamos aqueles que procuravam por ele assistindo à fita (juntamente com o fato de já sabermos de antemão o que aconteceu com ele) já é extremamente impactante. O Preço da Coragem é, portanto, um ótimo filme, que não chega a ser tão devastador emocionalmente falando como prometia, mas que ainda assim consegue ser impactante em determinados momentos. E que consegue, ao menos em parte, melhorar minha opinião sobre o cinema de Winterbottom.
Me decepcionei bastante com A Bússola de Ouro. Apresentada por muitos como um contraponto ateu ao ultra-católico As Crônicas de Nárnia, a história de Phillip Pullman se tornou uma grande bobagem ao ser transposta para o cinema (diferentemente da de C.S. Lewis). Infantil ao extremo, o filme de Chris Weitz parece recuar na proposta de Pullman de criticar abertamente a Igreja, colocando, em seu lugar, uma entidade opressora bastante genérica, ao mesmo tempo que aposta numa trama excessivamente confusa, onde muito pouca coisa faz realmente sentido. A narrativa é por demais apressada, com uma série de elementos passando completamente batidos pelo espectador, o que cria neste um profundo sentimento de indiferença e estranhamento com o que está ocorrendo. E o elenco pouco inspirado, interpretando personagens ainda menos interessantes não ajuda muito. Nicole Kidman não convence nem um pouco como a vilã da história, enquanto Eva Green, Daniel Craig e Sam Elliot são totalmente desperdiçados em personagens pequenos e irrelevantes. E, para completar, tem os efeitos especiais extremamente artificiais e mal-feitos, que inexplicavelmente ganharam o Oscar da categoria. Resta esperar que as possíveis continuações sejam ao menos um pouco melhores e diminuam a frustração causada por essa primeira parte de Fronteiras do Universo.
Que Sean Penn é um ótimo diretor A Promessa já tinha deixado bem claro. Por isso, o que faz esse belo Na Natureza Selvagem é, por um lado, comprovar o talento do ator para a direção mas, por outro, apontar que ele ainda tem algumas coisas para melhorar. Isso porque, ao contar a fascinante história de Christopher McCandless, Penn cria um filme grandioso e poderoso emocionalmente mas que possui uma caracteristica curiosa: ao optar por focar sua câmera na natureza que tanto encantava e atraía McCandless, nas cenas grandiosas dos locais pelos quais o jovem passou, ao invés da natureza íntima do personagem, o diretor acaba tornando seu protagonista uma figura não tão interessante quanto poderia ser, mesmo contando com uma bela interpretalção de Emile Hirsch. E aí acaba que os personagens que se tornam mais fascinantes e emocionantes aos olhos do espectador são os coadjuvantes que cruzam com McCandless em sua jornada. Os que mais mexeram comigo foram três, curiosamente, os três idosos que aparecem na história: os dois primeiros, o que recebe do protagonista uma moeda para continuar tentando ligar para sua esposa que o abandonou e o que vive como guia em um local isolado, são meros figurantes, mas que emocionam por sua natureza excessivamente e tragicamente humilde, enquanto o terceiro, interpretado por Hal Holbrook, possui um papel mais importante no filme, ainda que também pequeno. Holbrook surge em cena de forma devastadora, criando um diálogo com Hirsch dentro de seu carro absurdamente triste e emocionante, capaz de levar qualquer um às lágrimas. Embalada pela linda trilha sonora de Eddie Vedder, Na Natureza Selvagem é um filme emocionante, poderoso e, acima de tudo, sincero. E é também o melhor filme de Sean Penn como diretor. Mas também acaba deixando claro que sua obra-prima nessa função ainda está por vir.


Melhor: Terra em Transe
Pior: A Bússola de Ouro



por WALLACE ANDRIOLI GUEDES * 12:46 AM

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[Sábado, Junho 07, 2008]


Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal (Indiana Jones and the Kingdom of the Crystal Skull)
Direção: Steven Spielberg


Se Superman, Rocky Balboa e Rambo voltaram aos cinemas, por que não Indiana Jones, que talvez seja o maior herói já criado pelo cinema ? Afinal de contas, já era antigo o projeto de trazer o arqueólogo para uma nova aventura, mas foi difícil para os roteiristas conseguirem agradar ao produtor George Lucas e ao diretor Steven Spielberg, até finalmente David Koepp entregar a história de Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal. E, para a felicidade de qualquer pessoa que tenha crescido assistindo às aventuras do Dr. Jones na Sessão da Tarde, esse novo filme é um primor, no sentido de ser tudo o que se pode esperar de bom de um longa envolvendo o personagem. O maior acerto do roteiro está na decisão de situar sua trama em 1957 (ou seja, 19 anos após os acontecimentos de Indiana Jones e a Última Cruzada, lançado nos cinemas há exatos 19 anos), o que permite, primeiramente, que Spielberg se utilize de forma esperta do contexto dos anos 50, indo desde motoqueiros rebeldes (que têm no ótimo Shia LaBeouf seu principal representante na história) até o óbvio, e bem-vindo, aproveitamento da Guerra Fria (abrindo espaço para vilões deliciosamente caricaturais, especialmente a Irina Spalko vivida por uma inspirada Cate Blanchett), e, em segundo lugar, para que diretor, roteirista e Harrison Ford tratem de forma direta, sem rodeios, e com bom humor, a questão da idade do herói. Isso acaba se revelando fundamental para que consigamos retomar, tanto tempo depois, aquela identificação com o personagem devido, principalmente, à sua humanidade. Dito isso, chegamos ao ponto central da discussão que Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal traz à tona: é possível a Indiana Jones representar para o cinema dos anos 2000 e para essa geração atual o que ele representou para outras tantas gerações, desde sua primeira aparição em 1981, na obra-prima Os Caçadores da Arca Perdida ? Ou seja, num cinema dominado por Homem-Aranha e Jack Sparrow, conseguirá o arqueólogo recuperar seu trono ? Me parece que, após assistir a esse novo filme, fica difícil dar qualquer outra resposta a essa pergunta que não seja afirmativa. Por mais que o tempo tenha passado e que suas aventuras tenham sido copiadas à exaustão pelo cinema de ação e de aventura, Indiana Jones continua sendo, inexplicavelmente, único. E, obviamente, para que isso ocorra é fundamental a presença de Harrison Ford: o ator, quase sempre canastrão, consegue fazer desse um personagem absolutamente adorável, justamente utilizando-se dessa sua canastrice. Talvez, para compreender um pouco desse poder representado por Jones, baste acompanhar sua primeira aparição em O Reino da Caveira de Cristal: ela não é triunfante, muito pelo contrário, o herói surge apanhando, sendo jogado ao chão por agentes soviéticos, mas a maneira como Spielberg contrói cuidadosamente a caracterização de seu personagem, pegando seu famoso chapéu e levando-o à cabeça, até finalmente nos reencontrarmos, após 19 anos, com o arqueólogo, alimenta de uma forma fascinante as expectativas do espectador, transformando-nos em crianças encantadas com a presença de alguém que sabemos ser capaz de salvar o dia (e, nesse sentido, a inesquecível música de John Williams contribui significativamente). Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal é, felizmente, um grande filme, e não digo isso por ser fã do personagem (acho, por exemplo, Indiana Jones e o Templo da Perdição uma grande bobagem). É que, ao reencontrar nosso heróico arqueólogo depois de tanto tempo, enfim percebemos o quanto Jack Sparrow e companhia são chatos.


por WALLACE ANDRIOLI GUEDES * 2:07 AM

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[Domingo, Junho 01, 2008]

Speed Racer (idem)
Direção: Andy Wachowski e Larry Wachowski


Pode parecer estranho dizer isso, mas Speed Racer é um filme para poucos. O que não deixa de ser lamentável. Os irmãos Wachowski, em seu primeiro trabalho na direção após o encerramento da trilogia Matrix, apesar de comandarem uma superprodução, toda baseada em efeitos especiais e com uma premissa tão grata ao cinema de ação (as corridas de carro), fizeram uma opção bastante arriscada: o filme da dupla é uma grande homenagem ao anime que marcou época nas décadas de 1960 e 1970, buscando reproduzir, nos mínimos detalhes, tanto a atmosfera quanto o visual cartunesco que o desenho possuía. Daí, o que temos passa longe de um filme de corridas tradicional. Speed Racer, na verdade, é um grande desenho em live-action, onde tudo é extremamente exagerado, excessivamente estilizado, colorido, e, no caso das cenas envolvendo as competições automobilísticas, verdadeiramente alucinado. Mas, o melhor de tudo isso é que, no geral, o filme funciona muito bem (por isso, é uma pena que a maioria das pessoas vá torcer o nariz diante de todo o exagero estilístico e a falta de "realismo" apresentados pelos diretores, compreendendo muito pouco uma obra que possui grandes méritos), cometendo alguns poucos deslizes (confesso que me incomodaram um pouco os momentos cômicos protagonizados pelo garoto Paulie Litt, que é bom ator, e pelo macaco Zequinha, um tanto irritantes, ainda que sejam totalmente coerentes com a proposta do filme). Nesse sentido, o desempenho dos atores se revela como fundamental para o sucesso de um trabalho que é, quase que totalmente, baseado em efeitos especiais: enquanto o ótimo Emile Hirsch se encaixa perfeitamente como o protagonista Speed, transmitindo com talento toda a sua inocência mas, ao mesmo tempo, toda a sua paixão (que beira o absurdo) pelas corridas, e Matthew Fox consegue, com competência, se desvencilhar da figura do médico Jack, que interpreta em Lost, para criar o misterioso Corredor X, John Goodman e Susan Sarandon roubam a cena como os pais do jovem piloto, transparecendo com bastante honestidade e humanidade a sabedoria e os medos de duas pessoas que, ao mesmo tempo que amam aquele esporte, vivem a angústia de já terem perdido um filho nele, correndo o risco de perderem outro. Mas, ainda que o ótimo desempenho do elenco se revele fundamental para a qualidade do filme, é impossível não comentar o visual deslumbrante e alucinógeno criado pelos irmãos Wachowski e, principalmente, as inacreditáveis cenas de corrida. Rompendo totalmente com qualquer padrão "realista" que poderia se impor à criação de tais cenas, os diretores criam seqüências absurdamente empolgantes, mesmo com o espectador sabendo que tudo o que está vendo é, de acordo com uma visão realista de cinema, totalmente absurdo, o que, por si só, já é um grande mérito: fazer com que o público se identifique e se envolva com algo que tira de forma quase completa os pés da realidade. E é preciso dizer que, tanto a corrida de Casa Cristo quanto o Grand Prix que marca o epílogo da trama são simplesmente brilhantes e, no caso do segundo momento, verdadeiramente emocionante em seu desfecho redentor. Andy e Larry Wachowski são diretores extremamente competentes, donos de uma visão bastante particular de cinema e que, com seus talentos, se entregam de forma apaixonada ao trabalho, paixão essa que se torna clara ao assistirmos seus filmes. E isso ocorre de forma explícita em Speed Racer, um filme onde tudo está em seu devido lugar e que proporciona, para quem compreende os objetivos dos diretores e se deixa levar pela inocência deliciosa da trama, uma experiência cinematográfica única.


por WALLACE ANDRIOLI GUEDES * 2:27 AM

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[Domingo, Maio 25, 2008]

Homem de Ferro (Iron Man)
Direção: Jon Favreau


Assim como Homem-Aranha e Batman Begins, Homem de Ferro é um "filme de origem" exemplar. Tem o tom divertido do primeiro, caracterizado pela empolgação gerada pela descoberta de seus novos "poderes" pelo herói (nesse caso, não há nenhum poder sobrenatural, mas, ainda assim, as cenas envolvendo os aperfeiçoamentos da armadura de Tony Stark são tão contagiantes e divertidas quanto Peter Parker descobrindo suas novas habilidades), mesclado com a busca por realismo do segundo, com o roteiro se dedicando a apresentar com detalhes as tecnologias utilizadas por Stark. Nesse sentido, ainda que saibamos que o que estamos vendo tem muito pouco de realidade, o esmero de Jon Favreau faz tudo aquilo soar bastante verossímil. E, obviamente, para tornar tudo ainda mais atraente e para fazer Homem de Ferro funcionar, tanto como filme de super-herói como quanto uma história sobre pessoas de carne-e-osso, Favreau conta com um Robert Downey Jr. extremamente inspirado. O ator carrega para a composição de Tony Stark o seu passado conturbado na vida real e sua personalidade um tanto controversa, ficando muito à vontade no papel do milionário bon-vivant que se torna super-herói. Downey Jr. definitivamente nasceu para interpretar esse papel, e vê-lo enfim alcançado o sucesso merecido é muito bom. Talvez Tony Stark signifique para o ator o que Jack Sparrow siginificou para Johnny Depp. Um outro mérito do filme está na calma do diretor em desenvolver cada aspecto da história, não se apressando em apresentar o herói (algo que Christopher Nolan fez com brilhantismo em Batman Begins), o que faz com que, quando ele finalmente surja, gere uma cena inesquecível. Nesse caso, a ação do Homem de Ferro em um vilarejo afegão, extremamente empolgante, direta e impactante. No entanto, é curioso que, esse mérito do filme acabe sendo, de certa forma, responsável por sua principal limitação. Favreau demonstra ter em mente que esse é simplesmente um "filme de origem" e, por isso, não se preocupa em desenvolver uma trama que consiga ir além de ficar simplesmente mostrando a constituição do herói (por mais que, repito, tais cenas sejam muito boas), o que faz com que toda a subtrama envolvendo o personagem de Jeff Bridges e sua transformação no vilão do filme, o Monge de Ferro, soe forçada e artificial, por mais que o ator esteja bem como Obadiah Stane. Parece que ele está ali simplesmente porque o Homem de Ferro necessita de um antagonista para que o filme tenha uma grande cena de luta em seu epílogo, e para que o herói possa ter sua vida colocada em risco por um inimigo claramente mais poderoso. E, por isso, o embate entre os personagens acaba, como era de se esperar, se revelando decepcionante, sem nenhuma criatividade, o que é uma pena. Em suma, o que faz de Homem de Ferro um ótimo filme, acaba sendo também o fato responsável por impedir que ele seja uma pequena obra-prima. Mas, considerando o bom trabalho apresentado por Favreau (que, até o momento, não tinha feito nada de realmente bom em sua carreira de diretor) e o imenso talento de Robert Downey Jr., talvez possamos esperar isso das continuações que, com certeza, virão.


por WALLACE ANDRIOLI GUEDES * 7:55 PM

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[Sexta-feira, Maio 23, 2008]

OUTROS FILMES - ABRIL

Esses foram os filmes que assisti em abril e que ainda não haviam sido comentados aqui:


Medo da Verdade (Gone Baby Gone)
Direção: Ben Affleck


O Reino (The Kingdom)
Direção: Peter Berg


Proibido Proibir
Direção: Jorge Durán


Frida (idem)
Direção: Julie Taymor



Surpreende bastante essa estréia de Ben Affleck na direção. Medo da Verdade é um drama policial extremamente honesto, bem escrito, dirigido e interpretado por seu elenco e que tem o enorme mérito de levantar uma série de questões altamente relevantes, e de não ter a pretensão de tentar respondê-las. Baseando-se em livro de Dennis Lehane (cuja obra já rendeu outra obra-prima, Sobre Meninos e Lobos), Affleck estrutura o roteiro (ao lado de Aaron Stockard) de forma irretocável, permitindo que as reviravoltas da trama surjam de forma natural, sem soarem como forçadas para simplesmente cativar o espectador. Quem apostava, maldosamente, que sua contribuição para o roteiro premiado de Gênio Indomável havia sido ínfima (e que ele, portanto, não merecia o Oscar que recebeu), pode começar a rever seus conceitos agora. No entanto, é na direção que Affleck realmente se destaca: contando com um elenco primoroso, o ex-galã arranca desempenhos poderosos de seus atores, especialmente de Ed Harris, absurdamente intenso e brutal em cena, e de seu irmão Casey Affleck, estupendo. E há ainda Amy Ryan, bem (ainda que superestimada, tendo sido até indicada ao Oscar) como a mãe drogada da menina desaparecida que move a trama de Medo da Verdade. E, como diretor, Affleck ainda cria cenas excepcionais, sem precisar de, para isso, fazer uso de grandes novidades estéticas, com destaque para a angustiante seqüência em que os personagens de Harris e Casey Affleck invadem uma casa habitada por suspeitos do crime investigado (a reação do investigador interpretado pelo mais novo dos Affleck ao se deparar com determinada cena é expressada de maneira brilhante pelo diretor). O único elo mais fraco do filme está na personagem de Michelle Monaghan, pouco desenvolvida e que, no epílogo, toma uma decisão que, a meu ver, não se justifica, diante do que conhecíamos daquela mulher até aquele momento. Mas, de qualquer forma, ela serve para tornar o dilema final ainda mais complexo, dando um nó na cabeça e nos valores morais do espectador e fazendo de Medo da Verdade um pequeno grande filme.
Em certa medida, pode-se dizer que O Reino é apenas mais um blockbuster de ação hollywoodiano, que explora a situação (naturalmente potencial para tal gênero) atual do Oriente Médio, impondo a já tão conhecida visão preconceituosa norte-americana em relação às culturas diferentes da ocidental. No entanto, felizmente, o diretor Peter Berg conseguiu tornar as coisas um pouco mais complexas. Ele fez aqui um filme um tanto ambíguo, que, ao mesmo tempo que condena os valores que regem aquela sociedade "bárbara", "corrupta" e "sem lei" (afinal de contas, essas são as impressões disseminadas pelo grande cinema sobre as sociedades que não compartilham dos valores ocidentais), não possui um olhar exatamente positivo sobre o papel dos E.U.A. nessa questão extremamente complicada. Ainda que defenda seus protagonistas (vividos com competência por Jamie Foxx, Chris Cooper, Jennifer Garner e Jason Bateman), Berg consegue refletir sobre o ciclo de violência que permeia o mundo atual, especialmente o Oriente Médio, e sobre o papel bastante claro dos norte-americanos nisso. E isso se reflete tanto na ótima abertura, quando o diretor faz uma espécie de resumo da intervenção dos E.U.A. na região, quanto, principalmente, no contundente e corajoso final, onde os heróis finalmente compreendem o que eles estão fazendo nessa guerra sem fim, dando um soco certeiro no estômago do espectador que, até aquele momento, se via defendendo a "civilização" na luta contra a "barbárie". Só por isso, O Reino já valeria a pena. Mas, além disso, há ainda as excelentes cenas de ação e a trama intrincada, tensa, muito bem conduzida pelo diretor.
Proibido Proibir é um bom filme de Jorge Durán, ainda que irregular em muitos momentos. O diretor se sai muito bem quando desenvolve a relação entre os três protagonistas, muito bem interpretados por Caio Blat (dono do melhor desempenho do filme), Alexandre Rodrigues e Maria Flor, fazendo da amizade entre os personagens dos dois primeiros soar bastante verdadeira e da entrada de Flor em cena bastante natural. Quando opta por adotar um cunho mais social porém, Durán não é tão talentoso, assim como nas cenas envolvendo a paciente de Blat no hospital, um tanto artificiais. Mas, ainda assim, o diretor consegue levar a história para um rumo interessante, com uma parte final razoavelmente tensa e com um epílogo em aberto extremamente maduro, que me agradou bastante. Talvez Proibido Proibir só não seja um filme maior por perder na comparação com um outro filme brasileiro recente que tem um triângulo amoroso no centro de sua história: a obra-prima Cidade Baixa. Diante desse trabalho de Sérgio Machado o de Jorge Durán se apequena de forma assustadora, o que torna qualquer comparação nesse sentido uma grande injustiça.
É curioso como o cinema norte-americano tem grandes dificuldades em retratar histórias latinas sem enxergá-las com um olhar de exotismo e de estranheza, ainda que tais histórias sejam tentativas de exaltar algum personagem, como é o caso desse Frida. Sob a direção de Julie Taymor e a interpretação pretensiosa de Salma Hayek, a grande Frida Kahlo se torna uma heroína típica dos dramas hollywoodianos: há muito pouco da melancolia e da angústia que suas obras transmitem, e, no lugar, há uma biografia extremamente tradicional, dona de um conservadorismo que não é quebrado nem mesmo pelas inteligentes inserções feitas por Taymor misturando as cenas em live-action com os quadros da artista. Hayek e Alfred Molina não estão mal nos papéis de Kahlo e Diego Rivera, mas, ainda assim, fica a impressão de que suas interpretações se baseiam muito mais em caricaturas desses dois grandes artistas do que num estudo verdadeiramente profundo de personagens tão fascinantes. E, para completar, a o problema do filme ser falado em inglês. Pode ser implicância minha, mas ver Frida Kahlo, Diego Rivera, David Siqueiros e outros dialogando em uma língua diferente do espanhol é irritante para qualquer pessoa que conheça ao menos um pouco de suas obras. Esse pequeno, mas importante, defeito é a "cereja no bolo" da série de equívocos que é Frida.


Melhor: Medo da Verdade
Pior: Frida


por WALLACE ANDRIOLI GUEDES * 1:50 PM

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[Domingo, Maio 11, 2008]

5 FILMES SUBESTIMADOS

Recebi do Demas o convite para realizar essa lista e topei o desafio. Filmes subestimados é o que mas existe no universo cinematográfico, por isso, a lista que fiz, foi formada pelos primeiros que vieram à minha cabeça, por serem filmes que gosto muito. São eles:


5- Cassino (Casino)


Muitos esperavam um novo Os Bons Companheiros e acabaram se assustando com a longa e violentíssima jornada pela máfia de Las Vegas criada por Martin Scorsese. É de fato um filme cansativo, e confuso em alguns momentos, mas que impressiona pelo impacto que causa no especatador, seja pela direção minuciosa de Scorsese, que cria algumas cenas de violência que beiram o insuportável, seja pelo elenco primoroso, onde o destaque fica por conta de uma intensa e surpreendente Sharon Stone. Cassino é um filme que envelhece muito bem e que tende a ser reconhecido como um dos maiores da obra do diretor ítalo-americano.

4- Maria Antonieta (Marie Antoinette)


Poucos entenderam realmente o que Sofia Coppola queria com Maria Antonieta. Mas, aqueles que conseguiram ver além das críticas pela falta de fidelidade histórica, encontraram um filme de uma sensibilidade absurda, um retrato primoroso da juventude, aqui representada pela figura trágica da rainha da França deposta e morta pela Revolução. Um filme que dialoga de forma plena com os trabalhos anteriores da diretora e que traz uma adorável e irresistível Kirsten Dunst como protagonista: a jovem atriz ilumina a tela de tal forma que consegue resgatar uma figura absolutamente detratada pela História, tornando Maria Antonieta uma jovem mulher como outra qualquer.

3- De Olhos Bem Fechados (Eyes Wide Shut)


O último filme daquele que talvez seja o maior diretor de todos os tempos deveria ser uma obra-prima incontestável, no nível de outras como Laranja Mecânica, 2001: Uma Odisséia no Espaço e Barry Lyndon, certo ? Bem, De Olhos Fechados pode até não ser o melhor filme de Stanley Kubrick, mas é um filme extremamente injustiçado e pouco compreendido (em muito, pela expectativa que criou). Kubrick mergulha num universo de paranóia e perversão e leva junto Tom Cruise (absolutamente brilhante, no que talvez seja o mais poderoso desempenho de sua carreira) e Nicole Kidman (enigmática). É um filme tenso, envolvente, irônico e que nos coloca diante de nossa estranha condição humana. O canto do cisne de Kubrick é também um de seus melhores trabalhos, e o tempo há de mostrar isso.

2- O Poderoso Chefão 3 (The Godfather - Part III)


É verdade que, diante dos dois primeiros filmes da trilogia, O Poderoso Chefão 3 empalidece. É verdade também que Sofia Coppola é uma péssima atriz. Mas, ainda assim, isso não é o suficiente para diminuir esse que é um epílogo perfeito para a saga da família Corleone. Al Pacino ainda é Al Pacino e seu Michael Corleone é um figura ao mesmo tempo assustadora e trágica, repugnante e atraente, fascinante. Vê-lo velho, curvado, cansado, mas ainda assim absoluto em seu poder é, para qualquer admirador dessa trilogia, uma experiência emocionante. E a dupla Francis Ford Coppola/Mario Puzo ainda conhece muito bem seus personagens, conduzindo-os de forma emocionante para o belíssimo e contundente final. Ser menor do que O Poderoso Chefão e O Poderoso Chefão 2 não é demérito nenhum. Ser um belo encerramento para a história iniciada por eles, é um mérito gigantesco.

1- Gangues de Nova York (Gangs of New York)


Martin Scorsese foi acusado, ao lançar Gangues de Nova York, de se vender à "indústria cinematográfica" e aos grandes estúdios hollywoodianos. Acusação mais injusta impossível: se há um filme anti-hollywoodiano do diretor, aqui está ele. Da primeira (e maravilhosa) cena até o contundente final, Scorsese cria um épico de sangue e violência que revela as entranhas da sociedade norte-americana de forma corajosa, sem concessões. E, nesse sentido, é Daniel Day-Lewis a chave para compreender o filme: seu assustador Bill "The Butcher" é a síntese de tudo o que a América (como eles gostam de ser chamados) representa, da crença protestante, passando pelo preconceito e intolerância com outras culturas, até a necessidade (infelizmente, bastante atual) de impôr-se diante do mundo através da violência e da força, para que seus interesses e hegemonia sejam mantidos. É em uma cena, onde Day-Lewis discursa, envolvido na bandeira dos E.U.A., para o personagem de Leonardo DiCaprio, que tudo isso se torna mais claro, e onde o ator mostra o quão grande é. Obra-prima.


Repasso essa corrente para os seguintes blogueiros: Cecília Barroso (Cenas de Cinema), Bruno (Cine no pretensions), Marco (Anfitrião), Paulo Jr. (Baú de Filmes) e Rafael Carvalho (Moviola Digital). Preparem suas listas !


por WALLACE ANDRIOLI GUEDES * 10:29 PM

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